31 de dez de 2015

O QUE É MÚSICA?





Falar sobre música nos remete ao significado de arte e por intermédio dessa expressão visualizamos alguém tocando um instrumento ou em um conjunto como em uma orquestra ou até mesmo em uma banda, de uma pessoa cantando, de um DJ. mixando sons diversos, a música não é algo concreto, mas é composta pela junção de várias notas sonoras, sons diversos, ruídos e silêncios (pausas) e que no entanto temos a habilidade de ouvi-la e senti-la.

 J. Reis Gomes (Apud Leinig, 1977), nos diz que a arte não visa o espírito dos sábios, mas a alma de toda a humanidade demonstrada por intermédio da música, que é uma constante na vida do homem e tão antiga quanto à humanidade há uma atribuição de qualidade específica no campo da religião, da cultura, da medicina e no meio social.

Bruscia relata que a música é uma instituição humana na qual os indivíduos criam significação e beleza através do som, utilizando as artes da comunicação, da improvisação, da apresentação e da audição. A significação e da beleza derivam-se das relações intrínsecas criadas entre os próprios sons e das relações extrínsecas criadas entre os sons e outras formas de experiência humana. (Bruscia, 2000)

Por outro lado, a música produz efeitos em quase todos os humanos ao ressonar com os ritmos do indivíduo. Nossos ritmos inatos, pulsação cardíaca, por exemplo, produzem uma sonorização interna individual. Desta forma a musica apresenta-se como uma expressão singular em sua dupla dimensão externa e interna. Com essa singularidade, potenciais criativos podem ser desenvolvidos através da linguagem sonora, reestruturando-se a subjetividade, a autoestima, a autonomia e a cidadania. Estabelecendo, ainda, significações aos canais de comunicação e um maior contato com a realidade, o que auxilia nas mudanças e desvia o pensamento perturbado dos que estão em sofrimento psíquico.

Desde os primórdios a música já desempenhava um papel de importância em relação ao tratamento de muitas doenças para os gregos. Na antiguidade, Platão, um filosofo grego, afirmava que uma receita medicinal deveria ser acompanhada com música para a saúde da mente e do corpo para vencer as angustias fóbicas. Aristóteles realizava uma catarse (karthasis...) emocional, vivenciada através da música, para beneficiar os efeitos nas emoções incontroláveis. Sendo reconhecido atualmente um dos precursores da Musicoterapia.  

Com os adventos da ciência pós 2º Guerra Mundial as pesquisas sobre os efeitos da música vem nos mostrando o que realmente os elementos sonoros propõem reduzir e transformar os sintomas que são causados aos que vivem em sofrimento ou até mesmo para prevenir doenças. A música verdadeiramente gera algo na saúde física, psíquica, mental, emocional, seja de bem estar ou não, o qual mobiliza o sujeito para algo transformador seja de desorganização como uma organização do EU.    

Sabemos por experiência própria que a música por si só evoca uma grande variedade de emoções, culturas, questões psíquicas, no contexto social em que o individuo está inserido, considerando que o som resulta de duas atuações: uma a nível físico, que corresponde ao estado de vibração das moléculas de um corpo e outra, a nível perceptivo e gnósico, que resulta da vibração sonora no órgão sensorial e suas áreas de projeção e associação ao córtex cerebral (Correia, 1997). Demonstrando que o sujeito mesmo gostando ou não gostando do que está ouvido responde a uma reação seja de forma subjetiva e fisiológica.

Os filósofos Deleuze e Guattarri falam a respeito de territorialização e da desterritorialização e que a música proporciona este papel ao sujeito, um ritmo, um tempo, uma repetição de um som, uma harmonia, uma melodia, uma pausa, visto que, o sujeito é um ser musical dos seus próprios territórios das suas experiências, assumindo características intimamente novas ao estar no papel do conteúdo sonoro da apresentação de si “O som nos invade, nos empurra, nos arrasta, nos atravessa. Ele deixa a terra, mas tanto para nos fazer cair num buraco negro, quanto para nos abrir a um cosmo. [...] Tendo a maior força de desterritorialização, ele opera também as mais maciças reterritorializações, as mais embrutecidas, as mais redundantes. Êxtase e hipnose”.

Segundo Dr. Tartchanoff (Apud Tame, 1984), os efeitos dos estímulos sonoros sobre os músculos do esqueleto podem afetar de duas maneiras distintas: agindo diretamente sobre as células e órgãos e, indiretamente, sobre as emoções, influenciando numerosos processos corporais, exercendo poderosa influência sobre a atividade muscular, que aumenta ou diminui de acordo com o caráter das melodias empregadas.

As vibrações percebidas são capazes de estimular o sistema auditivo para decodificar tons, ritmos e timbres de diversos instrumentos, sendo também capazes de medir a quantidade de energia obtida em um som, primeiramente pelo ouvido externo, ouvido médio e, depois, pelo ouvido interno, como sinais eletroquímicos seguindo, pelo nervo auditivo até o córtex auditivo, transmitindo a intensidade sonora na freqüência que é percebida e traduzida pelos neurônios. Outras estimulações acontecem, produzidas pelas vibrações, que passam pela pele, músculos e ossos, por meio de receptores, como os mecanorreceptores. São estímulos mecânicos contínuos ou vibratórios, que veiculam a modalidade somestésica da percepção, com suas diferentes submodalidades, como os receptores auditivos, sendo a intensidade sonora transmitida na freqüência que é percebida e traduzida. Daí em diante a informação auditiva entrará no SNC, passando através de sucessivas sinapses, por uma série de núcleos, até chegar ao córtex cerebral, lobo temporal, lobo parietal, amígdala, hipotálamo, tálamo, sistema límbico (Ribas, 1957; Skille e Wigram, 1995; Kandel, Schwartz e Jessel, 1997; Cohen, 2001; Lent, 2005).


As regiões corticais e subcorticais, situadas nos setores mediais do encéfalo, demonstram que a música é ativada nas regiões do tálamo e do sistema límbico, destacando a importância das conexões que mantêm com o hipotálamo, juntamente com a área pré-frontal, onde há uma regulação dos processos motivacionais, como coordenador e integrador dos processos emocionais, sensações e sentimentos (Kandel, Schwartz & Jessel, 1997; Lent, 2005; Petersen, 2005).

A música alem de ser uma arte ela é do mesmo modo uma ciência, a qual esta ciência inclusive pode ser utilizada como terapia, que é a MUSICOTERAPIA.

Falaremos mais sobre a Musicoterapia e seus tratamentos!


Referencia Bibliográfica

BRUSCIA, KENNETH E. “Definindo Musicoterapia” / Kenneth E. Bruscia; tradução de Mariza Velloso Fernandez Conde. Ed. Enelivros. Rio de Janeiro. RJ, 2000.

COHEN, HELEN. Neurociência para Fisioterapia. Incluindo correlações clinicas. 2 ed. Editora Manole. São Paulo. SP, 2001.

CORREIA, CLÉO F. MONTEIRO. “Lateralização para Funções Musicais na Epilepsia Parcial”. Tese apresentada à Universidade Federal de São Paulo. Escola Paulista de Medicina, para obtenção do Título de Mestre em Neurociências. São Paulo. SP, 1997.

KANDEL, ERIC R.; SCWARTZ, JAMES H.; JESSELL, TOMAS M. Fundamentos da Nuerociência e do Comportamento. Tradução de Charles Alfred Esbérard e Mira de Casrievitz Engelhardt. Editora Guanabara Koogan S.A. Rio de Janeiro. RJ, 1997.

LEINIG, CLOTILDE E. Tratado de Musicoterapia. Sobral Editora Tec. Artesgraficas Ltda. São Paulo. SP,1977.

LENT, ROBERTO. Cem Bilhões de Neurônios: Conceitos fundamentais de Neurociência. Ed. Atheneu. São Paulo.SP, 2005.

PETERSEN, E. MARTINS. Musicoterapia e Oncologia em Unidade Hospitalar
Especializada. Artigo publicado na Revista Eletrônica Voices: A World Fórum for Music Therapy , na seção Coluna Principal, em 1 de novembro de 2005, sob o título Music Therapy and Oncology at The Natuional Institute of Câncer.

POYARES, LUDMILA C. S. “VIBRAÇÕES SONORAS EM MUSICOTERAPIA” /Ludmila Christina Simões Poyares. Faculdades Metropolitanas Unidas – FMU, 2008, 74 páginas; ilustração: Jamie Huffman, BS, AMI; J/B Woolsey Associates e Simone Mendes.

POYARES, LUDMILA C. S. “IMPORTÂNCIA E INCIDÊNCIA DA MUSICOTERAPIA NA SAÚDE MENTAL” / Ludmila Christina Simões Poyares. Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo – USP, 46 páginas.

PINTO, MARLY CHAGAS O. “PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO NA MÚSICA E NA MUSICOTERAPIAMarly Chagas Oliveira Pinto. Tese (Doutorado em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, Instituto de Psicologia- Programa de pós-graduação em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social– EICOS; Rio de Janeiro: UFRJ/IP, 2007.

RIBAS, J. CARVALHAL. Natureza da música – Ação da música nos seres vivos. Fundamentos Psicológicos do Fenômeno Musical. Emoção Musical. Música e Medicina. 2 ed. Gráfica e Editora EDIGRAF Ltda. São Paulo. SP, 1957

SKILLE, OLAV; WIGRAM, TONY. The Effect Of Music, Vocalisation and Vibration on Braisn and Muscle Tissue: Studies in Vibroacoustic Therapy. The Art and Science of Music Therapy: Handbook. Edited by Tonny Wigram, Bruce Sapertn and Robert West. Inglaterra, 1995.

TAME, DAVID. O Poder Oculto da Música – a transformação do homem pela energia da música. Tradução Octavio Mendes Cajado. Editora CULTRIX. São Paulo. SP, 1984.